Eugénio de Andrade


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Poemas

 

Balança

Onde me levas, rio que cantei,

Num exemplar das Geórgicas

O lugar da Casa

Oiço falar

O sal da língua

É urgente o amor

Entre os teus lábios

Diz homem, diz criança, diz estrela.

É na escura folhagem do sono

Música, levai-me:

No brilho redondo

Sê tu a palavra,

Colhe

Ainda sabemos cantar,

Nunca o verão se demorara

Devias estar aqui rente aos meus lábios

De palavra em palavra

Foi para ti que criei as rosas.

Húmido de beijos e de lágrimas,

Sê paciente; espera

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

À breve, azul cantilena

Vê como o verão

Eram de longe.

A raiz do linho

Quase Nada

Madrigal  

As palavras

Rotina

Adeus

A boca

Também o deserto vem

Green God

Na varanda de Florbela

O sorriso

As Palavras Interditas

Adeus

Canção

Mar de Setembro

Retrato   Ardente

O Silêncio

Pequena elegia de setembro 

As mãos

Abril

Os amantes sem dinheiro

Nem sempre o corpo se parece

Essa mulher, a doce melancolia

Deixa a mão

Litania

Lettera amorosa

Corpo Habitado

 

Balança

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

Onde me levas, rio que cantei,

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

Num exemplar das Geórgicas

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

O lugar da Casa

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Oiço falar

Oiço falar da minha vocação
mendicante e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci á rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava á minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara e doiravam
o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria á minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

É urgente o amor

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.  

Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.  

Diz homem, diz criança, diz estrela.


Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.  

É na escura folhagem do sono

É na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.  

Música, levai-me:

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?  

No brilho redondo

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.  

Sê tu a palavra,

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?  

Colhe

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.  

Ainda sabemos cantar,

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.  

Nunca o verão se demorara

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?  

Devias estar aqui rente aos meus lábios

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum  

De palavra em palavra

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.  

Foi para ti que criei as rosas.

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.  

Húmido de beijos e de lágrimas,

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)  

Sê paciente; espera

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.  

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.  

À breve, azul cantilena

À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.  

Vê como o verão

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.  

Eram de longe.

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.  

A raiz do linho

A raiz do linho
foi meu alimento,
foi o meu tormento.

Mas então cantava.  

Quase Nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.
 

 

Madrigal

Tu já tinhas um nome, e eu não sei

se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.

Nos meus versos chamar-te-ei amor.  

 

II  

Cantas. E fica a vida suspensa.

É como se um rio cantasse:

em redor ´tudo teu;

mas quando cessa o teu canto

o silêncio é todo meu.  

As palavras

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

Rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras 
e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! 
Era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! 
E eu acreditava! 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 
Mas isso era no tempo dos segredos, 
no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
no tempo em que os teus olhos 
eram peixes verdes. 
Hoje são apenas os teus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor... 
já não se passa absolutamente nada. 

E, no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
de que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos nada que dar. 
Dentro de ti 
Não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus.

 

A boca

A boca,
onde o fogo 
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?) 
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser 
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Também o deserto vem

Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas

Green God

Trazia consigo a graça  
das fontes quando anoitece.  
Era o corpo como um rio  
em sereno desafio  
com as margens quando desce.  

Andava como quem passa  
sem ter tempo de parar.  
Ervas nasciam dos passos,  
cresciam troncos dos braços  
quando os erguia no ar.  

Sorria como quem dança.  
E desfolhava ao dançar  
o corpo, que lhe tremia  
num ritmo que ele sabia  
que os deuses devem usar.  

E seguia o seu caminho,  
porque era um deus que passava.  
Alheio a tudo o que via,  
enleado na melodia  
duma flauta que tocava. 

Na varanda de Florbela

Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

O sorriso

Creio que foi o sorriso, 
sorriso foi quem abriu a porta. 
Era um sorriso com muita luz 
lá dentro, apetecia 
entrar nele, tirar a roupa, ficar 
nu dentro daquele sorriso. 
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

 

As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios.  
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios.  

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.  
É preciso partir, é preciso ficar.  

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E abrem-se janelas 
mostrando a brancura das cortinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas;  
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas minhas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira,  
dói-me esta solidão de pedra escura, 
e estas mãos noturnas onde aperto  
os meus dias quebrados na cintura.  

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens vivas, desenhadas,  
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

 

 

Adeus

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Canção  

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.  
Alta torre, alma, navio, 
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.

Mar de Setembro  

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto, 
Fremente de espumas.  
Corpos ou ondas: 
iam, vinham, iam, 
dóceis, leves, só 
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem; 
despertos, amam, 
exaltam o silêncio.  
Tudo era claro, 
jovem, alado.
O mar estava perto, 
puríssimo, doirado.

Retrato   Ardente

No teu peito 
é que o pólen do fogo 
se junta à nascente, 
alastra na sombra. 

Nos teus flancos 
é que a fonte começa 
a ser rio de abelhas, 
rumor de tigre. 

Da cintura aos joelhos 
é que a areia queima, 
o sol é secreto, 
cego o silêncio. 

Deita-te comigo. 
Ilumina meus vidros. 
Entre lábios e lábios 
toda a música é minha

O Silêncio  

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 

quando azuis irrompem 
os teus olhos 

e procuram 
nos meus navegação segura, 

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 

pelo silêncio fascinadas. 

Pequena elegia de setembro  

Não sei como vieste, 
mas deve haver um caminho 
para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim, 
as mãos no regaço cheias de doçura, 
os olhos pousados nas últimas rosas 
dos grandes e calmos dias de setembro. 

Que música escutas tão atentamente 
que não dás por mim? 
Que bosque, ou rio, ou mar? 
Ou é dentro de ti 
que tudo canta ainda? 

Queria falar contigo, 
dizer-te apenas que estou aqui, 
mas tenho medo, 
medo que toda a música cesse 
e tu não possas mais olhar as rosas. 
Medo de quebrar o fio 
com que teces os dias sem memória. 

Com que palavras 
ou beijos ou lágrimas 
se acordam os mortos sem os ferir, 
sem os trazer a esta espuma negra 
onde corpos e corpos se repetem, 
parcimoniosamente, no meio de sombras? 

Deixa-te estar assim, 
ó cheia de doçura, 
sentada, olhando as rosas, 
e tão alheia 
que nem dás por mim. 
 

As mãos  

Que tristeza tão inútil essas mãos 
que nem sempre são flores 
que se dêem: 
abertas são apenas abandono, 
fechadas são pálpebras imensas 
carregadas de sono. 

Abril  

Brinca a manhã feliz e descuidada, 
como só a manhã pode brincar, 
nas curvas longas desta estrada 
onde os ciganos passsam a cantar. 

Abril anda à solta nos pinhais 
coroado de rosas e de cio, 
e num salto brusco, sem deixar sinais, 
rasga o céu azul num assobio. 

Surge uma criança de olhos vegetais, 
carregados de espanto e de alegria, 
e atira pedras às curvas mais distantes 
- onde a voz dos ciganos se perdia. 

Os amantes sem dinheiro  

Tinham o rosto aberto a quem passava 
Tinham lendas e mitos 
e frio no coração. 
Tinham jardins onde a lua passeava 
de mãos dadas com a água 
e um anjo de pedra por irmão. 

Tinha como toda a gente 
o milagre de cada dia 
escorrenbdo pelos telhados; 
e olhos de oiro 
onde ardiam 
os sonhos mais tresmalhados. 

Tinham fome e sede como os bichos, 
e silêncio 
à roda dos seus passos, 
mas a cada gesto que faziam 
um pássaro nascia dos seus dedos 
e deslumbrado penetrava nos espaços. 

Nem sempre o corpo se parece  

Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro cante na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.
 

Essa mulher, a doce melancolia  

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Deixa a mão

Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.

Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.

A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.

De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.

Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.

A boca sobre a boca nevava.

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

O triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece:
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

Lettera amorosa

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


Corpo Habitado


Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido 
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres, 
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim -
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.