Joaquim Pessoa


 Biografia                                                        Voltar à Lista de Poetas

 

Poemas

 

in O Pássaro no Espelho

Por cima das palavras

Outono

Resistir

Passo a passo

 

in Poemas de Perfil

A todos e a cada um dos meus amigos

Ao José Gomes Ferreira

Ao Nuno Júdice

À Maria Teresa Horta

Ao Bernardo Santareno

 

in Amor Combate

Soneto Primeiro

Amor Combate

 

in Português Suave

Bastava-nos amar. E não bastava

 

in Os Olhos de Isa

Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite

Eu sei, não te conheço mas existes

Porque escondes a noite no teu ventre?

De onde me chegam estas palavras?

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

De esperas construímos o amor intenso e súbito

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

Nenhuma morte apagará os beijos

 

in Os Dias da Serpente

 

Perguntas

 

in À Mesa do Amor

 

Quero-te para além das coisas justas

Estes pequenos pensamentos são pequenas orações

 

in 125 Poemas

 

Os amantes com casa

 

Por cima das palavras

Desenho a curva da tua boca. Um sino.

Por cima das palavras já é dia.

A voz persegue o animal difícil

Que caminha o dia, a passo.

 

Esta parede de vidros enlouquece

Como uma selva. Uma paragem de autocarro.

Na tua mão a coragem é a arma necessária.

O amor são três lâmpadas. Os dedos principiam.

Outono

 

Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,

Uma flecha cravada no outono. E a canção

Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.

E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como

Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza

Quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.

Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se

Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.

Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede

Cumprimenta o sol. Procura-se viver.

Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.

Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se

Como se, de repente, não houvesse mais nada senão

A imperiosa ordem de (se) amarem.

Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.

Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.

Não há um nome para a tua ausência. Há um muro

Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho

Que a minha boca recusa. È outono.

A pouco a pouco despem-se as palavras.

Resistir


Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro

 
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

Passo a passo

 

A par e passo passo neste espaço

abrindo a largos golpes largos espaços

e passas nos meus passos passo a passo

repassas em abraços os meus braços.

A peso peso os passos quando piso

os traços com que traço e já trespasso

o passeio nos lenços que desfaço

em lassos laços quando passas

como um punhas perdido em plena praça

A todos e a cada um dos meus amigos

 

A todos e a cada um dos meus amigos

 

Por um       por todos       por nenhum

faço o meu canto       canto a minha mágoa

num desencanto aberto pelo gume

deste pranto tão limpo como a água.

 

Por nenhum       por todos ou por um

eu dou o meu poema       o meu tecido

de palavras gravadas com o lume

do medo que na voz trago vencido.

 

Por nenhum       por um      mesmo por todos

sou a bala e o vinho       sou o mesmo

que pisa as uvas       os versos e o lodo

num chão onde a coragem nasce a esmo.

Ao José Gomes Ferreira

 

Por baixo a cidade

dentro da gaveta.

Lua de saudade

no céu do poeta.

 

No bolso uma estrela

e uma borboleta.

Um dragão que vela

o sono do poeta.

 

No peito uma rima

da dor mais abjecta

saltando por cima

do amor do poeta.

 

É o medo        o medo

que abre uma greta

e mostra o segredo

que queima o poeta.

 

No fundo a certeza

da morte completa

que se senta à mesa

do próprio poeta.

 

E a morte é um lírio

que enfeita a sarjeta

aberta em delírio

à voz do poeta.

Ao Nuno Júdice

 

O poema acabado é uma insónia

uma tribo de verbos          uma crina

que se estende no cheiro desta amónia

e queima em cada verso uma narina

 

do poeta metido entre o desgosto

que as palavras trazem todas na algibeira.

Difícil é tapar o próprio rosto

sem meter os dedos na fogueira

 

acesa pela harpa dos sentidos

esticados como um leque de varetas

que tornam os poemas pervertidos

e fazem a loucura dos poetas.

À Maria Teresa Horta

 

Minha fêmea esculpida neste verso

meu poeta da raiva de não ser

ou estar         ou ver apenas o reverso

da metade que há no homem         na mulher.

 

Minha espada cravada neste espelho

de rosas desbotadas e perdidas

meu nó estrangulado o canto velho

das imagens estilhaçadas         repetidas.

 

Ergue o teu beijo por cima da certeza

de ser esta cidade         este poema

que nos despe e nos leva para a cama

onde a poesia é mais livre        mais acesa.

Ao Bernardo Santareno

 

Sobre um rasto de sangue nasce o dia.

A morte é a coragem de esquecer

a água que há no poço da alegria

ou a força que impede de a beber.

 

Aqui já ter coragem         e ter casa

erguida no silêncio destes dedos

que tocam as palavras         como a asa

do medo vai tocando outros segredos

 

abertos nessa raiva que nos prende

ao chão e à ternura         não à sede

do homem que se compra         que se vende

e acaba fuzilado na parede.

Soneto Primeiro

 

Não foi Guevarra, mãe, quem te rasgou
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!

Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.

E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.

Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.

Amor Combate


Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

 

Amor-país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

 

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. amor imenso. amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

 

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

 

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de liberdade.

Bastava-nos amar. E não bastava

 

Bastava-nos amar. E não bastava

o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?

O vento como um barco: a navegar.

Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

 

Bastava-nos ficar. E não bastava

o mar a querer doer em cada ideia.

Já não bastava olhar. Urgente: amar.

E ficar. E fazermos uma teia.

 

Respirar. Respirar. Até que o mar

pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar

 

a tua pele molhada de sereia.

Bastava, sim, encher o peito de ar.

Fazer amor contigo sobre a areia.

Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite

 

Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite

Acende fogueiras.

 

Os  meus olhos param. Nos olhos de Isa.

 

Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada

E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar

E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde.

 

Nos olhos de Isa.

 

Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas,

Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra.

 

Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel

Onde as abelhas constroem a tarde

Desesperadamente.

Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão.

Eu sei, não te conheço mas existes

 

Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre á tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.

Porque escondes a noite no teu ventre?

Porque escondes a noite no teu ventre?

Nesse país de sombra onde se calam as palavras.

Aí, no escuro lago onde estremece a flor da amendoeira

E onde vão morrer todos os cisnes.

 

Eu desvendo a tua dor, o teu mistério

De caminhares assim calada e triste,

Quando viajo em ti com as mãos nuas e o coração louco

No mais fundo de ti, onde só tu existes.

 

Oh, eu percorro as tuas coxas devagar

Dobrando-as lentamente contra o peito

E penetro em delírio a tua noite

Esporeando éguas no teu sangue.

De onde me chegam estas palavras?

 

De onde me chegam estas palavras?

 

De onde me chegam estas palavras?

 

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência.

 

Apenas o coração

pulsando a solidão antes de ti

quando o teu rosto doía no meu rosto e eu descobri as minhas mãos

sem as tuas

e os teus olhos não eram mais que o lugar escondido onde a primavera

refaz o seu vestido de corolas.

 

E não havia um nome para a tua ausência.

 

Mas tu vieste.

 

De coração da noite?

Dos braços da manhã?

Dos bosques do outono?

 

Tu vieste.

 

E acordas todas as horas.

Preenches todos os minutos.

Acendes todas as fogueiras.

Escreves todas as palavras.

 

Em canto de alegria desprende-se dos meus dedos

Quando toco o teu corpo e habito em ti

E a noite não existe

Porque as nossas bocas acendem na madrugada

Uma aurora de beijos.

 

Oh, meu amor,

Doem-se os braços de te abraçar,

Trago as mãos acesas,

A boca desfeita

E a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando

O medo de perder-te é um cordel que pisa os meus cabelos

E se perde depois numa estrada deserta por onde

Caminhas nua

Como se estivesses triste.

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

 

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

 

Eu quero apenas amar-te lentamente

como se todo o tempo fosse nosso

como se todo o tempo fosse pouco

como se nem sequer houvesse tempo.

 

Soltar os teus seios.

Despir as tuas ancas.

Apunhalar de amor o teu ventre.

De esperas construímos o amor intenso e súbito

 

De esperas construímos o amor  intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.

Em estranhos desencontros nos amamos.

Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.

Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras

enquanto as gaivotas disputavam sobre a água

talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.

As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias

E por muito tempo permaneciam assim, unidas,

Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.

Depois olhávamo-nos nos olhos

No mais profundo silêncio. E, sem palavras,

Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve

Quando a noite descia apaixonada

Como o longo beijo da nossas despedida.

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

 

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

ou se ao menos me desses as mãos como quem beija

e não partisses, assim, empurrando o vento

com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos

todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo

que ambos empunhamos na cidade clandestina

Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores

e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos

para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos

onde o teu rosto se esconde no meu rosto

e a minha boca lembra a tua despedida,

talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer

essa cor perdida nos teus olhos.

 

Nenhuma morte apagará os beijos

 

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

 

Ai estarão de novo as nossas mãos.

E nenhuma dor será possível onde nos beijamos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma liquida e atormentada

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Perguntas

 

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Quero-te para além das coisas justas


Quero-te para além das coisas justas

e dos dias cheios de grandeza.

A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,

as ágatas, as águas.

O meu sol vem de dentro do teu corpo,

a tua voz respira a minha voz.

De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas

dos beijos? Discuto esta noite

apenas o pudor de preferir-te

entre as coisas vivas.

Estes pequenos pensamentos são pequenas orações

 

Estes pequenos pensamentos são pequenas orações

de fidelidade ao teu corpo. Quem dera

que escutasses, destas horas, o cantar do sul,

as persianas do vento debaixo das estrelas,

os meus passos lá fora sobre a relva, junto

a uma imensa rosa de água azul.

Está tão quieto o ar. Tão sem ar o ar,

que o amor sufoca. A cama tem apenas

o aroma dos pinheiros por lençol. Sobre a pele dos mares,

a curva dos teus lábios, nenhuma brisa sopra.

No umbral da porta a manhã aguarda o teu sorriso,

esse jeito de acordar os pássaros do sol.

No pequeno jardim, entre as rápidas chamas da sardinheira

e o fresco ardor da madressilva,

as abelhas procuraram já o teu perfume.

Os amantes com casa

 

Andavam pela casa amando-se

no chão e contra as paredes.

Respiravam exaustos como se tivessem

nascido da terra

de dentro das sementeiras.

Beijavam-se magoados

até se magoarem mais.

Um no outro eram prisioneiros um do outro

e livres libertavam-se

para a vida e para o amor.

Vivendo a própria morte

voltavam a andar pela casa amando-se

no chão e contra as paredes.

Então era música, como se

cada corpo atravessasse o outro corpo

e recebesse dele nova presença, agora

serena e mais pobre mas avidamente rica

por essa pobreza.

A nudez corria-lhes pelas mãos

e chegava aonde tudo é branco e firme.

Aquele fogo de carne

era a carne do amor,

era o fogo do amor,

o fogo de arder amando-se e por toda a casa,

contra as paredes,

no chão.

Se mais não pressentissem bastaria

aquela linguagem de falar tocando-se

como dormem as aves.

E os olhos gastos

por amor de olhar,

por olhar o amor.

E no chão

contra as paredes se amaram e

pela casa andavam como

se dentro das sementeiras respirassem.

Prisioneiros libertados, um

no outro eram livres

e para a vida e para o amor se beijaram

magoando-se mais, até

ficarem magoados.

E uma presença rica,

agora nova e mais serena,

avidamente recebeu a música que atravessou de

um corpo a outro corpo

chegando às mãos

onde toda a nudez é branca e firme.

Com uma carne de fogo,

incarnando o amor,

incarnando o fogo,

contra o chão das paredes se amaram

pressentindo que

andando pela casa bastaria tocarem-se

para ficarem dormindo

como acordam as aves.