Poema da Semana - Arquivo


 

 


 

Semana 1

 

Ternura

 

Desvio dos teus ombros o lençol

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do Sol,

quando depois do Sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!

há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

em que uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despimos assim que estamos sós! 

 

David Mourão Ferreira


 

Semana 2

Instantes...

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
Na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
Na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiénico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
Subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
Teria problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu a vida sensata e produtivamente cada minuto da sua vida ;
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro,
Uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas ;
Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da Primavera,
E continuaria assim até o fim do Outono.
Daria mais voltas na minha rua,
Contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
Se tivesse outra vez uma vida pela frente...
Mas , já viram, tenho 85 anos e sei que estou a morrer.

(Autor desconhecido)


 

Semana 3

 

A todos e a cada um dos meus amigos

 

 

Por um       por todos       por nenhum

faço o meu canto       canto a minha mágoa

num desencanto aberto pelo gume

deste pranto tão limpo como a água.

 

Por nenhum       por todos ou por um

eu dou o meu poema       o meu tecido

de palavras gravadas com o lume

do medo que na voz trago vencido.

 

Por nenhum       por um      mesmo por todos

sou a bala e o vinho       sou o mesmo

que pisa as uvas       os versos e o lodo

num chão onde a coragem nasce a esmo.

Joaquim Pessoa

 


 

Semana 4

 

Observo, os mais ínfimos pormenores
Provocados, pelos menos notados movimentos
Que efectuas, sempre que chegas
Junto à janela...
Minha ou tua
(De) Onde te vislumbro, te admiro
Onde, saqueio as forças necessárias
Para te encontrar
Mas, raios! Onde será essa maldita janela
Que teima em não aparecer?

 

Miguel Crespo, 15 anos...

 

Amo as tuas palavras
Tuas palavras que em certas horas caminham
Assim como quem busca um pouco de coragem
Amo as tuas palavras

 

Jovem brasileira de 15 anos...

 

 

A minha mãe

é a minha porta!...

 

Ana Rita, 2 anos...

 

in Cancioneiro Infanto-Juvenil, vol. "O sonho vem pela cabeça"

 


 

Semana 5

 

 

Tempo de Poesia

Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

 

António Gedeão

 


 

Semana 6

 

Talvez

Talvez até a Vida seja simples
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio

Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.

Maria Azenha

Coração dos relógios, Editora Pergaminho, 1998 - Lisboa, Portugal

 


 

Semana 7

 

 

O Pintor, o pássaro e a gaiola
 

Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta
Depois pinte
algo gracioso,
algo simples,
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos se necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele aparecer
observe no mais profundo silêncio
até o pássaro entrar na gaiola.
E quando ele entrar
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida pinte a árvore
escolhendo o mais bonito dos seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas na relva
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se o pássaro não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca uma das penas do pássaro
e escreve o seu nome num canto do quadro.

Jacques Prévert

 


 

Semana 8

 

 

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

 

José Gomes Ferreira

 


 

Semana 9

 

(Escre)ver-me

 

 

nunca escrevi

 

sou

apenas um tradutor de silêncios

 

a vida tatuou-me nos olhos

janelas

em que me transcrevo e apago

 

sou

um soldado

que se apaixona

pelo inimigo que vai matar

 

 

Mia Couto

 


 

Semana 10

 

Pelo Alto Alentejo

Meto butes à inteira planura.
Esboroa-se a terra. Lá para trás,
Sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
Do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco (ou sem leitura)
Não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas , aqui,
Sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, com o alibi
Da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar pra ler e presumir,
Quando Alentejo se puser a rir…


Alexandre O'Neill

 


 

Semana 11

 

Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

 

Florbela Espanca

 


 

Semana 12

Poema dum funcionário cansado...

A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 
Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números 
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida 
num quarto só.

 

António Ramos Rosa


 

Semana 13

 

Vem comigo

Ser pétala

Asa

Mais nada...

Vem

Seguir o vento...

Pousar cantando

No alto de um abeto

Ou de uma casa...

Julieta Lima


 

Semana 14

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca

b) 0 modo como as violetas preparam o dia

para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarjas

vermelhas têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência

num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega

mais ternura que um rio que flui entre 2

lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.

Etc.

etc.

etc.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.


Manoel de Barros, «O Livro das Ignorãnças»


 

Semana 15

 

SERENATA AO MENINO DO HOSPITAL


Menino não morra,
porque a lua cheia
vai-se levantando do mar.
São de prata e de ouro
as águas e a areia.
Não morras agora,
vem ver o luar!


Menino não morras:
na dormente mata,
uma flor vai desabrochar.
É azul! É roxa?
É de ouro? É de prata?
Não morras agora!
Vem ver o luar!

Menino, não morras:
verdes vaga-lumes
correm de prata e de ouro
todos os perfumes.
Não morras agora!
Vem ver o luar.

Menino não morras:
ouve a serenata
que sussura nas cordas do ar...
São cordas de sonho,
são de ouro e de prata.
Não morras agora!
Vem ver o luar.

Menino, não morras:
sobre o céu deserto,
há uma estrela imensa a brilhar.
É de prata e de ouro!
Como está tão perto!
Não morras agora,
- que a estrela da aurora
veio ver teu rosto
banhado de luar!

Cecília Meireles


 

Semana 16

AS NOITES

As noites continuam a sentir,

Por dentro das palavras que ressoam

Profundas, por dentro do meu sentir...

Que ficam cá... daqui nunca mais voam...

 

Palavras que não riem por sorrir

Sorrisos virtuais que nunca soam

Palavras que me fazem pressentir

Que noites lindas 'inda me povoam

 

As noites, são mulheres que se arrepiam

Dos dias que não souberam viver,

Ainda que por vezes lhes sorriam...

 

Às noites tudo pode acontecer,

Morrer de amor até já lhe pediam...

Poetas loucos, sem saber escrever!

João Moutinho


 

Semana 17

QUANDO ME ABANDONEI EM TI,
eras pensamento,

algo
murmura entre nós dois:
do mundo a primeira
das últimas
asas,

em mim cresce
a pele sobre 
tempestuosa
boca,

tu
não chegas
até
ti.


Paul Celan


 

Semana 18

Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga


 

Semana 19

 

O luar

 

O luar,

é a luz do Sol que está sonhando

 

O tempo não pára!

A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

 

...os verdadeiros versos não são para embalar,

mas para abalar...

 

A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

 

Mário Quintana


 

Semana 20

 

I

Só as tuas mãos trazem os frutos.

Só elas despem a mágoa

destes olhos, e dos choupos,

carregados de sombra e rasos de água.

 

 

Só elas são

estrelas penduradas nos meus dedos.

- Ó mãos da minha alma,

flores abertas aos meus segredos.

Eugénio de Andrade, As mãos e os Frutos


 

Semana 21

 

 

II

 

Cantas. E fica a vida suspensa.

É como se um rio cantasse:

em redor é tudo teu;

mas quando cessa o teu canto

o silêncio é todo meu.

Eugénio de Andrade, As mãos e os Frutos


 

Semana 22

 

III

 

Quando em silêncio passas entre as folhas,

uma ave renasce da sua morte

e agita as asas de repente;

tremem maduras todas as espigas

como se o próprio dia as inclinasse,

e gravemente, comedidas,

param as fontes a beber-te a face.

 

 

Eugénio de Andrade, As mãos e os Frutos


 

Semana 23

 

Natal, e Não Dezembro

 

Entremos, apressados, friorentos,

num gruta, no bojo de um navio,

num presépio, num prédio, num presídio,

no prédio que amanhã for demolido...

 

Entremos, inseguros, mas entremos.

Entremos, e depressa, em qualquer sítio,

porque esta noite chama-se Dezembro,

porque sofremos, porque temos frio.

 

Entremos, dois a dois: somos duzentos,

duzentos mil, doze milhões de nada.

Procuremos o rastro de uma casa,

a cave, a gruta, o sulco de uma nave...

 

Entremos, despojados, mas entremos.

Das mãos dadas talvez o fogo nasça,

talvez seja Natal e não Dezembro,

talvez universal a consoada.

 

David Mourão-Ferreira


 

Semana 24

 

 

Poema de Natal
 
 
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
 
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
 
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
 
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
 

Vinícius de Moraes


 

Semana 25

O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo»


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto


 

Semana 26

 

Os Olhos do Poeta

 

O poeta tem olhos de água para reflectirem as cores do mundo,

e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.

Em são olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,

e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,

com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.

Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos

e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias

e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da Terra

e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas

e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos dos pólos, brancos, brancos,

e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram

e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando como contos-de-fada à hora da infância

e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas

e correndo pela costa de mãos jogadas prò mar amaldiçoando a tempestade:

- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.

Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,

sai uma estrela voando nas trevas

tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta

que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo

Manuel da Fonseca


 

Semana 27

É nas tuas mãos de vidro

é no teu olhar aberto

que aparece o espelho certo

amar de longe é tão perto

amar de perto é tão vivo

que não pode haver decerto

castigo.

Sim eu vejo em ti a minha força

tu vês em mim a tua rosa

formosa

Sou flor do espanto e da ternura

não serei casta nem pura

sou rosa

Ary dos Santos


 

Semana 28

 

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-iris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

 

António Ramos Rosa


 

Semana 29

 

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentarse de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões


 

Semana 30

 

Amar!

 

Eu quero amar, amar perdidamente! 

Amar só por amar: aqui... além... 

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... 

Amar!  Amar!  E não amar ninguém!


Recordar?  Esquecer?  Indiferente!... 

Prender ou desprender?  É mal?  É bem? 

Quem disser que se pode amar alguém 

Durante a vida inteira é porque mente!


Há uma primavera em cada vida: 

É preciso cantá-la assim florida, 

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!


E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada 

Que seja a minha noite uma alvorada, 

Que me saiba perder... pra me encontrar...    

 

Florbela Espanca


 

Semana 31

 

Coisa amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te logamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre


 

Semana 32

Ninguém Meu Amor


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos


Sebastião Alba (Poeta vagabundo)


 

Semana 33

 

Amor dos Fogos


.....vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...


Al Berto


 

Semana 34

A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido em teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas tuas mãos , e ser
tranqüilo e bom, todo cheio de paz.


Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos; e assim ganha
uma amplitude que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora vão morrer
as primeiras ondas de infinidade.


Rainer Maria Rilke


 

Semana 35

Gostava de cantar a alguém uma cantiga de embalar,
sentar-me a seu lado, e ficar sossegado.
Gostava de embalar-te murmurando uma canção,
estar contigo na orla do sono.
Ser a única pessoa acordada em casa
a saber que a noite está fria.
Gostava de ouvir cá dentro e lá fora,
ouvir-te, ouvir o mundo e os bosques.
Os relógios tocam a rebate,
e podes ver o tempo até ao fim escoar-se.
Ao fundo da rua um estranho passa
e incomoda o cão de um vizinho.
Por trás, o silêncio. Pousei os meus olhos
em ti como numa mão aberta,
e eles prendem-te ao de leve e deixam-te ir,
quando algo se move no escuro


Rainer Maria Rilke


 

Semana 36

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo, Todos os Poemas


 

Semana 37 a 41


ENCANTAMENTO


Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.

 

 

CREPUSCULAR


A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro:
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

 

 

ARTE POÉTICA COM CITAÇÃO DE HOLDERLIN

 

O poema lírico nasceu de uma roseira. Não
digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos
olham, primeiro que tudo, pensando
em cortá-la para a levarem consigo. É
a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,
vestida com a substância da terra:
a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por
acaso, e ela agarra, como se tivesse
mãos abstractas por dentro das suas folhas.

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades 
ancestrais, e abriu-se como o ventre da 
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num  barco tão fundo como a sua própria 
morte.

Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.

(Metáfora contínua de um único sentimento).
 
QUASE UMA NATUREZA MORTA

 

Um braço de rio que se solta da margem: os ramos
prolongam, na água, a nostalgia de terra. A pureza
da luz não atravessa a superfície para se perder
num fundo que não se adivinha (ali, onde a corrente
faz saltar as espumas do centro, ninguém se aventura
- mesmo que as pedras separem o curso branco
das águas). «Que é isto?», perguntas. A parábola
capital: a tua vida cortada ao meio, como se não
houvesse uma direcção única a prosseguir até ao
fim. «Nem no amor?» Porém, a tarde traz consigo
o frio, a visão transparente dos montes, e até 
o canto dos pássaros parece mais nítido, como se
nenhuma outra vibração o contaminasse. Respiro
contigo o conhecimento da realidade: mesmo que ele
passe pela descoberta de outra vida, pelo contacto
entre duas solidões, ou apenas por uma breve
hesitação antes que os lábios se toquem, levando
um e outro a saltar a outra margem - a mais abstracta
a que apenas separa um corpo de outro corpo e,
por cima disso, define os limites da razão e do sentimento.
 

UM ROSTO

Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas 
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu 
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos. 
 
 
 
Nuno Júdice

 

Semana 42

 

Silêncio

 

Assim como do fundo da música

brota uma note

que enquanto vibra cresce e se adelgaça

até que noutra música emudece,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, aguda torre, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto sobe caem

recordações, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

o grito se desvanece:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

 

Octávio Paz


 

Semana 43

Tua nudez

 

A rosa:

tua nudez feita graça.

 

A fonte:

tua nudez feita água.

 

A estrela:

tua nudez feita alma.

 

Juan Ramón Jimenez


 

É tão fundo o silêncio

 

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.

Nem o som da palavra se propaga,

Nem o canto das aves milagrosas.

Mas lá, entre as estrelas, onde somos

Um astro recriado, é que se ouve

O íntimo rumor que abre as rosas.

 

José Saramago 


 

Balada do Outono

Águas
E pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão
Acordar
Àguas
Das fontes
calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Àguas
Do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Àguas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Escrever um livro, Criar um filho, Plantar uma árvore

Escrevi um livro.
Quantos anos a sonhá-lo,
A rascunhá-lo nas mesas dos cafés,
A escrevê-lo nos intervalos do emprego,
A vivê-lo,
A sofrê-lo,
Na província, nas cidades...!

Criei um filho.
Tanta alegria no meu coração!

Só ainda não plantei uma árvore.
O frágil caule como protegê-lo?
Como não deixar que os bichos
Maculem as pequeninas folhas?
E como dialogar com uma árvore-menina?

Agora vai sendo tempo.
Os anos já me pesam.
Amanhã vou plantar uma árvore.

Saúl Dias


Conheço o sal

 

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

 

 

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.


O corpo não espera


O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

 

Jorge de Sena


Plenos poderes

Tão pacientes fomos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos, as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixa-lo-emos sem anotação:
damo-lo aos outros como lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão pouco guardámos
a memória.
Ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida;
e agora não te lembres sequer
do mais pequenos promenor,
não guardate sequer um ramo
da primeira luz.

Sabe-se apenas que nascemos.

Um nó é dado com o fio da vida,
Nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

Não tens mais recordações que a tua vida.

Pablo Neruda


Solidão Criadora

Dorme e sonha a meu lado
Tão alheia de mim
Que me sinto um amante abandonado...
Acordá-la?
Gritar?
O poeta é uma angústia que se cala
A cantar.

Miguel Torga


O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro  


Haja névoa

Haja névoa!
dancem os véus na minha alma
(e externos nas luzes próximas,
que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
paire nela a memória dos maniacos
sonhando na penumbra dos portais
assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
aqui e além no mar.
no mar, nos mares, para que todas as viagens,
para que todos os barcos em todas as paragens,
na iminência dos naufrágios improváveis
- improváveis possiveis -,
se gastem nos avisos aflitos
das luzes, dos rádios, dos radares,
dos gritos
dos apitos.
Haja, haja névoa...
desgastem-se os contornos
das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
e eu, nas ruas distorcidas,
livre e tão leve
como se fosse eu próprio a névoa
da noite longa de uma existência breve.



Reinaldo Ferreira


Aos olhos dos Anjos, os cimos das árvores

são talvez raízes que bebem os céus;

e, no céu, as raízes profundas de uma faia

parecem-lhes cumeeiras de silêncio.

 

Não será que, para eles, a terra é transparente,

face a um céu cheio como um corpo?

Esta terra ardente onde o olvido dos mortos

se lamenta e chora - à beira das nascentes.

 

Rainer Maria Rilke


Poema de Natal

 

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que sâo ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

 

Miguel Torga


XVIII

 

em tempo de narcisos (que sabem

o sentido da vida é crescer)

esquecendo porquê, recorda como

 

em tempo de lilases que proclama

o desígnio da vigília é sonhar,

recorda assim (esquecendo parece)

 

em tempo de rosas (que assobram

o nosso agora e aqui com o paraíso)

esquecendo se, recorda sim

 

em tempo de todas as doçuras para além

do que quer que a mente possa entender,

recorda busca (esquecendo acha)

 

e num mistério a haver

(quando o tempo do tempo nos livrar)

esquecendo-me, recorda-me

 

E. E. Cummings


Noite única noite singular impressa

consagração das chuvas e das flores violadas

 

dos pássaros algemados em voo

dos silêncios por amor à voz

das alquimias pobres alquimias de oiro

das turbinas de aço onde as espadas escorrem

 

crescem árvores mais definitivas

pálpebras trémulas da noite

 

é o muro que eu recrio a cal sem vazios diários

todos de verdade nós todos férteis salvos

 

todos veias claras nós sementes

nós o susto fecundo de vivermos

nós os números e as letras e os desenhos

 

ah matem-me de noite punhais híbridos

sentinela das fronteiras extintas

sentinela última da noite

 

 

Luíza Neto Jorge


 

Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado

de puros volumes de água.

Nenhuma busca tão funda, a tal pressão,

como pesa na água uma ilha fria,

a raíz de uma ilha.

Uns procuram ramas de ouro.

Outros, filões de púrpura unindo

sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar

as quimaduras no escuro. Há quem seja

terrestre.

Tu esbracejas entre sal agudo.

Não falas, mal respiras, moves-te apenas

e fulguras

como uma estrela cheia de bolhas.

Feroz, paciente, arremetido, mortal, centrífugo.

Com todo o peso do coração no centro.

 

Herberto Hélder


Quasi

Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos onde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

………………………………………
………………………………………

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…  

Mário de Sá-Carneiro


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho


O deserto inominável

 

O deserto é um silêncio depois do mar,

É o êxtase da luz sobre o coração da areia.

Vai-se e volta-se e nada se esquece.

Tudo se oculta para depois se dar a ver

No ponto em que os ventos se cruzam

E as almas gritam no fundo dos poços.

Os cestos sobem e descem prometendo água,

Uma frescura que derrete a febre.

Não são as tâmaras que adoçam a boca,

É a beleza das mulheres dissimulando

O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.

As serpentes assobiam ou cantam

Conforme o veneno que lhes molda o sangue.

Enroscam-se sobre as pedras

como fragmentos de lua à espera da manhã.

E a sombra alonga-se nas dunas

Ondulando rente às palmeiras

Como a última cobra do medo das crianças.

Não há ruído maior que este silêncio

Que se serve com tâmaras e com chá

Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.

É no que não se nomeia que está o infinito.

 

José Jorge Letria


 

Cair da noite

 

Cai a noite a mudar devagar os vestidos

que uma franja de árvores velhas lhe segura;

olhas: e separam-se de ti as terras:

uma que vai para o céu, outra que cai;

 

e deixam-te, sempertenceres de todo a qualquer delas,

não tão escuro como a casa silenciosa,

não tão seguro a evocar o eterno

como a que cada noite se faz estrela e sobe;

 

e deixam-te (indizível de desenredar!)

a tua vida, agustiada, gigantesca, a amadurar,

tal que, ora limitada ora compreensiva,

alterna em ti - ou pedra ou astro.

 

Rainer Maria Rilke

 


Suspensórios de Sol

Tirar do bolso um tempo, outros lugares.
Suspensórios antigos e tão fora de moda,
voltando-me de súbito aos ouvidos:
a voz da minha mãe, um riso, o ser pequena
em roda da ternura, ou aquela noite escura
em que me balouçava de ambas as mãos deles.

Por cima, era de céu de tinta preta,
e estrelas, a vertigem, mas a mão esquerda
vinda do meu pai, na minha mão direita,
e as estrelas tão perto, como cair da cama
do avesso, ou mergulhar em tecto.

Tempos daquele circo colorido,
em frente do cinema, o cheiro doce
da serradura húmida, a serradura em sons
ao ser pisada, a entrada na luz,
nos súbitos relâmpagos feitos de absoluta lucidez.

Trazia um elefante por dentro da cabeça
e o sonho de fugir em caravana,
não precisar de escola, e prender
o trapézio no olhar.

Refugiar-me em sol, até à serra,
onde viviam grupos de ciganos que desciam,
às vezes, à vertigem da vila.
E era cair da serra do avesso,
como cair do sonho.

Já não saber cair sem ser direita: ver estrelas
ao contrário, como se fosse da primeira vez,
e senti-las em tecto, tapete de veludo,
e a vertigem tão certa.
Poder ressuscitar os suspensórios,
torná-los corda elástica e perfeita,
a borracha: um acerto de mãos dadas
dentro de sentir múltiplo.

Sabia que na serra se faziam fogueiras,
se cantava, se comia de roda da alegria,
com palavras diferentes, outros sons.
Que os palhaços voltavam quatro vezes no ano,
mesmo sem mim ao lado,
mas que cada vez outra, era outra vez igual:
a caravana, o sol, sonhar a serradura
em pés descalços, não precisar de escola,
e as cordas do trapézio.

No céu de tinta preta desta noite, cair
sobre as estrelas outra vez,
apertando nas mãos as coisas todas
feitas de alegria.
Tirar do bolso um suspensório aceso:
a música do circo como um sino, a serra
toda verde. E um elefante gordo de sorriso,
insinuando azul dentro da luz.

Ana Luísa Amaral


Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector


Anima Mundi

 

Atropelam-se os rios em demanda do mar; vergam-se

as costas ao chicote das ondas. Os espinheiros

que crescem sobre as dunas iniciam as aves

nas punições do mundo. Quem se encosta

 

ao ombro descarnado da falésia vê o fantasma

da morte acenar-lhe do abismo; e o mesmo sol

que ofende os muros em ruínas e açoita os pontões

humilha os deuses e desafia os homens. Por isso,

 

ao poente, se alguém risca no dorso das areias

novas nomenclaturas, explodem no céu dilúvios

e tormentas, que desfraldam as velas, invertem

as marés, desatinam as bússolas e confundem

quem vai ao leme sobre o recorte das arribas.

 

(Mas se há naufrágio guarda-se segredo da tragédia

nos arquivos das estrelas - que o vento vem de noite

aos ossos dos navios dar destino à paisagem e

contorno à mentira.) Aqui acaba a terra; e uma pátria

 

como esta não se submete sem revolta à espessura

da página, nem se escreve a cores na cegueira dos mapas:

 

subsiste apenas nos retratos efémeros de quem subiu

à escarpa e, iludindo a arquitectura da luz, espreitou

impunemente no decote do mundo e lhe arrancou a alma.

 

 

Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes

 


 

VIII

 

L Miedo apuis, yá mui triste,

Ls uolhos longe, perdido:

"Sabes que naide rejiste

Se por naide fur oubido?

 

Bibo, na muorte pensando,

I aprendendo culs abós:

La muorte cierta ben quando

Naide mira para nós."

 

Fracisco Niebro, L Ancanto de las Arribas del Douro (poesia mirandesa)

 


Do amor IV

 

Esta vista de mar, solitariamente,

dói-me. Apenas dois mares,

dois sóis, duas luas

me dariam riso e bálsamo.

A arte da Natureza pede

o amor em dois olhares.

 

Fiama Hasse Pais Brandão


Em trinta e três bocados

 

I

Pássaro nunca interceptado

A tua estrela apazigua a alma

O meu caminho alcança o seu limite

O ar afasta-se dele e nele morre o homem.

 

II

Antes de te conhecer comia e tinha fome, bebia e tinha sede, o bem e o mal eram-me indiferentes, eu não era eu mas o meu próximo.

 

III

Olhos puros nos bosques

Procuram, chorando, a cabeça habitável.

 

IV

O homem que leva a evidência às costas

Guarda a lembrança das vagas nos depósitos de sal.

 

V

Eu que nunca andei mas nadei mas voei entre vós.

 

VI

Deixa-me acreditar no efémero que ontem encantava os seus olhos.

 

VII

A paz do entardecer aborda cada pedra, lança nela a âncora da dor

E a seguir vem a noite grávida de batalhas.

 

VIII

O ar era maternal

As raízes cresciam.

(...)

 

XI

Mas a angústia nomeia a mulher

Que bordará o número do labirinto.

 

XII

A segurança é um perfume.

 

XIII

Uma mulher segue com o olhar o homem vivo que ama.

(...)

 

XV

O ar que pacienta e a vela rara

Dócil irmã da águia.

(...)

 

XVII

É preciso tremer para crescer.

 

XVIII

Ela vê emagrecer os pássaros inquietos.

(...)

 

XX

Os silenciosos incuráveis

A figueira que amamenta as ruínas

Aqueles que canalizam a espuma do mundo subterrâneo.

(...)

 

XXIII

Mão-de-obra errante de mim mesmo.

(...)

 

XXV

Não enterramos o pé na fonte

Para nos sentirmos iguais à amendoeira.

 

XXVI

Este fanático das nuvens

Tem o poder sobrenatural

De deslocar para distâncias consideráveis

As paisagens habituais.

(...)

 

Eis-nos de novo a sós, ó poesia. O teu regresso significa que devo uma vez mais medir-me contra ti, contra a tua hostilidade juvenil, com a tua sede tranquila de espaço, e afrontar para tua alegria este desconhecido equilibrante de que disponho.

 

René Char, Este fanático das nuvens, Livros Cotovia


Na luz a prumo

 

Se as mãos pudessem (as tuas,

as minhas) rasgar o nevoeiro,

entrar na luz a prumo.

Se a voz viesse. Não uma qualquer:

a tua, e na manhã voasse.

E de júbilo cantasse.

Com as tuas mãos, e as minhas,

pudesse entrar no azul, qualquer 

azul: o do mar,

o do céu, o da rasteirinha canção

de água corrente. E com elas subisse.

(A ave, as mãos, a voz.)

E fossem chama. Quase.

 

Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede

 


O tempo e o mar

 

Era um homem, a sombra de um homem e

caminhava para o mar.

Estas pegadas

são o obscuro rumor do tempo 

e o tempo é uma vara oblíqua nas mãos de deus.

Que fará um homem com as dores do mundo,

com a última gota dos cálices ao lado da noite?

Reconstruir o teu rosto da amada

dar vida à sua silenciosa vida?

Matar,

no súbito ardil do Outono, os vestígios de uma 

palavra secreta?

Há uma cidade profunda onde em profunda água

ela o esquece.

Quem para o mar caminha

leva consigo a maldição das ilhas com

um lírio quebrado, uma ânfora de pólen,

um adeus.

 

José Agostinho Baptista


Não sei como dizer-te...

 

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

 

que te procuram.

Herberto Hélder

(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

 


 

ESQUECER

Então é isto, a morte, ir esquecendo as palavras uma a uma.
Ao princípio julguei ter acedido ao paraíso,
visto que as primeiras palavras que perdi eram difíceis e inúteis,
gostava de viver assim abandonado às que restavam.
Mas depois fui esquecendo palavras que me faziam falta
e comecei a entristecer.

Peguei numa folha de papel para escrever uma carta
e não consegui lembrar-me da palavra própria para dizer
a vontade de te encontrar de novo.
Folheei vários livros para a encontrar
e não consegui reconhecê-la.

Já esqueci como se chama o sítio onde as coisas sucedem,
também esqueci como se diz aquilo que brilha e se divide em sete cores,
sei que brevemente esquecerei o nome de cada uma delas.

É ainda mais penoso do que tinha imaginado,
saber que para sempre existirei
sem te poder dizer,
sem te poder pensar.

A morte é isto, então,
não reconhecer a palavra própria
para chamar aquele que se ama
aquele que

Julieta Monginho


 

... E UMA CANÇÃO DESESPERADA

...não totalmente,

mas no inveterado fingimento

que o adjectivo tem.

E de inverno em inverno,

à reticência azul do teu sorriso

todos os dias

desço

Queria da vida:

um pêlo de gigante

que te fizesse enorme e te falasse

junto a voz

falada

Os meus dedos tocando

o teu sorriso,

que, de inverno em inverno,

é nave espacial

emergindo do gelo

para o sol

E eu ficar por ali: tão encostada

ao verso,

carregada de luz

e de outras coisas:

trabalhos a fazer, ritmos lentos

Sem grandes construções,

sem grandes falas,

mas de um pêlo solene de dragão,

e dentro da palavra que é imposta

por esta noite morna,

que me ajuda a compor-te,

que me ajuda de facto

a desesperar:

uma canção de amor.

Descer o teu sorriso e aterrar

em planeta diferente,

onde outras flores com outro nome

nascem,

e as estações são vinte, ou mais

- sensivelmente.

.Ana Luísa Amaral

Imagias

Lisboa, Gótica, 2002


O aroma da língua

 

Subimos a rua sob a floresta de plátanos,

o apito do comboio lembra o aroma das árvores

que julgamos sentir

como a tua mão lembra as minhas pernas

e assim todas as coisas acariciadas se parecem

mas não sei onde se passa tudo isto

que se passa connosco.

O próprio sentido de plátano perde-se em mim

pois és tu que soletras a palavra "árvore"

enquanto a rua sobe nos teus passos.

 

Que faço com as palavras "aqui" e "aí"

por onde vais enquanto a rua caminha?

Por que espaço sem espaço

em que língua impossível

chegamos à palavra "nos"?

Por que magia nos cruzamos no tempo

arrastados por um "aqui" que não pára de dançar,

que não pára. Como?

 

 

Rosa Alice Branco


 

Os balcões sucessivos sobre o rio

 

Os balcões sucessivos sobre o rio

as tesouras de poda nas roseiras

a sonolência lânguida e perversa

esse todo coerente e sobre ele apenas

a abóbada da minha perfeição

é esse o meu convite à desistência

a pena menos pública do mundo nos

lagos das finas flores dos sabugueiros

onde a mulher soltava os cabelos

pra que neles se prendesse o cheiro a erva

Ela tinha um aspecto inesperado

vinha com o vestido cor magenta nos

braços que lhe cresceram sobre a terra

movia-se ao andar como uma barca

Importa-me é o curso do dia e da noite

Vou andar um bocado nos caminhos

é pela hora em que não há ninguém

nudez desprevenida dos meus dias

mas só de noite desço até ao mar após

as sete horas da tarde crepuscular

os cheiros confortáveis e antigos

imagens dum lirismo fraudulento

um conforto algum tanto apreensivo

coisas que desde a infância a construíam

Mudo de opinião continuamente

espero o teu regresso pela tarde

e cuidadosamente velo a minha cólera

A vida é para mim pesar de pálpebras

leitura de discursos no outono

na casa abandonada e submetida à chuva

Regresso afinal aos próprios hábitos

sorrisos de mulheres sobre a areia

sou fiel à tristeza e pouco mais

e meto então um lenço num dos bolsos

que cheira ao perfume dos pinheiros

Ave de alarme sou deixem-me só

sou um contemporâneo assisto a tudo

os sinais vesperais nos dias de verão

o cão que passa numa encruzilhada

um cântaro que racha inexplicavelmente

confundido no hálito do mar

a minha saudação aos infantes do medo

crianças que iniciam o andar

Espero por alguém espero pelo sol

pla doçura estival da laranjeira

ando pelos caminhos muito tempo

e passo pelas portas devassadas pelos ventos

em cujos gonzos sopram agonias

E espero de novo a floração da primavera

Não quero nada quero estar presente sobre

as dunas do começo dos pinhais

nesse mundo de medos e animais

onde abri os meus olhos para a luz de agora

E perco todo eu em contrições

ó terra branca e carnal e triste

as minhas madrugadas do sargaço

abertas nos bocejos da neblina

quanto o tempo é suave e chega em dunas

à sensibilidade das narinas

nas horas generosas da maré

 

Ruy Belo


O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

Estávamos juntos
como vejo estar no palco
sob dois projectores.

Os olhos
as mãos
todo o corpo
era só o frio da noite.

João Miguel Fernandes Jorge


Os anjos

 

Têm todos bocas cansadas

e almas claras, sem orla.

E passa-lhes por vezes pelos sonhos

uma saudade (como de pecado).

 

Parecem-se quase todos uns aos outros;

estão calados nos jardins de Deus,

como muitos, muitos intervalos

no seu poderio e melodia.

 

    Só quando desdobram as asas

é que despertam qualquer vento:

Como se Deus, com as suas largas

mãos de estatuário, passasse

as folhas do escuro Livro do Princípio.

 

Rainer Maria Rilke


14.

 

A noite enrosca-se-me na cintura, a mover-me um cerco,

a colocar-me à mercê da lua. Um trilho de água-doce

humedece a orla de uma nudez convergente com o desejo.

 

Perante a indiferença de toda a gente, uma mulher desceu

a montanha, prenhe de solidão. Fascinada pela noite, deixou

que lhe mutilassem as mãos, para parir sem algemas.

E doeu-lhe no peito o grito de nascer de todos os filhos,

o soluço sufocado de todas as mães. Depois, pairou no ar,

um estranho aroma de sardinheiras brancas.

 

Graça Pires, Reino da Lua